A Muleta da TI: O Paradoxo que Freia a Inovação nas Empresas Brasileiras
Nos últimos anos, a evolução do mundo corporativo tem sido nada menos que sísmica, e é inegável que a tecnologia figura como o epicentro dessa transformação. Em minha visão, ela transcendeu o papel de ferramenta para se consolidar como um pilar estratégico, essencial tanto para a competitividade quanto para a salvaguarda de dados sensíveis.
Contudo, este artigo não se propõe a discorrer sobre termos generalistas, mas a mergulhar em uma análise mais específica, fundamentada na minha percepção de processos internos em diversas empresas e projetos nos quais estive envolvido.
Para ser franco e direto, a grande maioria das corporações, em escala abrangente, não está preparada para o ritmo da evolução tecnológica. Podemos atribuir isso a múltiplos fatores, como a carência de profissionais capacitados ou outras variáveis determinantes. O fato é que a realidade operacional de muitas organizações ainda se apoia em métodos arcaicos. O "jeitinho" brasileiro e uma enormidade de planilhas interconectadas ainda são os meios para se alcançar um objetivo, criando um ecossistema frágil, propenso ao erro humano e à ineficiência.
A questão que se impõe é: o que sustenta essa prática? Seria uma tentativa de economia? A minha observação aponta para o contrário: é um ciclo vicioso de retrabalho, perda de tempo e, no fim, de recursos financeiros. Percebi também que existe uma dissonância cultural profunda. Acredite, no Brasil de hoje, muitos profissionais ainda não desenvolveram uma fluência digital básica, não por serem maus profissionais, mas porque suas funções, historicamente, nunca exigiram tal empenho. Estão imersos em processos que, embora funcionais em um nível superficial, são fundamentalmente reativos e não proativos.
O Custo Oculto do Suporte Reativo Aqui, a tecnologia, principalmente no Brasil, assume um papel paradoxal. Em vez de ser a alavanca para o desenvolvimento, tornou-se uma muleta para a estagnação profissional. Cria-se uma dependência crônica do departamento de TI para resolver questões que deveriam ser triviais. Como aponta um artigo da Harvard Business Review, a verdadeira transformação digital não é sobre implementar novas tecnologias, mas sobre mudar a mentalidade e capacitar as pessoas a utilizá-las de forma a utônoma e estratégica.
Quando a equipe de TI passa o dia "apagando incêndios" — resolvendo problemas de login, ajustando fórmulas em planilhas ou explicando funcionalidades básicas de softwares — ela deixa de focar em sua missão primordial: o desenvolvimento de novas ferramentas, a otimização de processos complexos e a inovação que pode, de fato, alavancar a corporação no mercado. A TI se torna um suporte técnico sobrecarregado, em vez de um parceiro estratégico de negócios. Embora seja tentador discutir o papel da educação e do desenvolvimento do próprio país, prefiro focar na raiz da responsabilidade individual de cada profissional, que não depende exclusivamente de fatores externos para evoluir.
A Padronização como Ponto de Partida para a Autonomia
Uma solução que muitas empresas têm adotado, e que observei como um primeiro passo eficaz, é a padronização de processos e tarefas. No entanto, essa padronização não deve ser apenas um livro de regras, mas um catalisador para a alfabetização digital.
O objetivo final não é apenas criar um fluxo de trabalho unificado, mas empoderar cada colaborador. Isso envolve:
1. Automação de Tarefas Repetitivas: Ferramentas de Robotic Process Automation (RPA) podem eliminar a necessidade de planilhas complexas, automatizando a coleta e o manuseio de dados, o que, segundo a Gartner, reduz drasticamente os erros e libera os funcionários para tarefas de maior valor agregado.
2. Criação de uma Base de Conhecimento: Tutoriais simples, vídeos e FAQs acessíveis que permitam aos usuários resolver problemas comuns por conta própria, transformando a mentalidade de "chamar a TI" para "consultar a base".
3. Cultura de Aprendizado Contínuo: Incentivar e fornecer recursos para que os profissionais desenvolvam habilidades digitais que transcendam suas funções imediatas. A responsabilidade pela evolução deve ser compartilhada entre a empresa e o indivíduo.
Em suma, a verdadeira barreira para a inovação não é a falta de tecnologia, mas a forma como nos relacionamos com ela. Superar a dependência da "muleta da TI" é o primeiro passo para que as empresas deixem de apenas sobreviver na era digital e comecem, de fato, a prosperar. A transformação começa quando cada profissional assume a responsabilidade por sua própria evolução e a TI é finalmente liberada para fazer o que faz de melhor: construir o futuro.
Referências e Leituras de Apoio
- Gartner, "Top Strategic Technology Trends": Análises anuais sobre como a automação e outras tecnologias estão remodelando os negócios. https://www.gartner.com/en/information-technology/insights/top-technology-trends
- Harvard Business Review, "Digital Transformation Is Not About Technology": Artigo clássico que discute a importância da mudança de mentalidade e cultura sobre a implementação de ferramentas. https://hbr.org/2019/03/digital-transformation-is-not-about-technology
- McKinsey & Company, "The new digital edge: Rethinking strategy for the postpandemic era": Insights sobre como a digitalização se tornou um imperativo estratégico e os desafios de sua implementação. https://www.mckinsey.com/capabilities/mckinsey-digital/our-insights/the-new-digital-edge-rethinking-strategy-for-the-postpandemic-era